Tratamento para Alzheimer: quais são as opções e o que realmente ajuda?
- Ariely Teotonio Borges

- 18 de mar.
- 5 min de leitura
Receber o diagnóstico de doença de Alzheimer muda a vida de toda a família. Uma das primeiras perguntas que surgem é: existe tratamento para Alzheimer, tem remédio que melhora, dá para “segurar” a memória por mais tempo?
Neste texto, eu vou explicar de forma clara quais são as opções de tratamento para Alzheimer disponíveis no Brasil, como funcionam os medicamentos, o que podemos fazer além dos remédios e por que o acompanhamento contínuo faz tanta diferença.
O que significa tratar o Alzheimer?
Tratar o Alzheimer não é apenas passar um remédio e pronto. Quando falo em tratamento, penso em três frentes principais:
Cuidar dos sintomas cognitivos, como memória, linguagem e atenção.
Manejar alterações de comportamento, como agitação, irritabilidade, delírios ou apatia.
Organizar a rotina, o ambiente e o suporte para que a pessoa e a família consigam viver com mais segurança e dignidade.
As diretrizes brasileiras destacam exatamente isso: o tratamento precisa ser combinado, unindo remédios e intervenções não farmacológicas, com forte participação da família e da equipe de saúde.
Tratamento medicamentoso para Alzheimer
Os medicamentos usados hoje no Brasil não “curam” o Alzheimer, mas podem trazer melhora discreta a moderada em memória, atenção, orientação e nas atividades do dia a dia, especialmente nos estágios leve e moderado.
inibidores da acetilcolinesterase
Esse grupo é considerado a base do tratamento medicamentoso nos estágios leve a moderado da doença. São eles: donepezila, rivastigmina e galantamina.
Esses remédios atuam aumentando a disponibilidade de acetilcolina, um neurotransmissor importante para memória e aprendizagem, que está reduzido no cérebro de pessoas com Alzheimer.
Na prática, o que podemos esperar:
Pequena melhora ou estabilização da memória e da atenção.
Mais facilidade para realizar tarefas simples do dia a dia, como se vestir, se alimentar, organizar pequenos recados.
Em alguns casos, melhora discreta de sintomas como apatia, ansiedade ou sintomas depressivos.
Efeitos colaterais mais comuns incluem náuseas, dor abdominal, perda de apetite, diarreia e, em alguns pacientes, queda de pressão e diminuição da frequência cardíaca. Por isso, a dose precisa ser iniciada baixa e aumentada aos poucos, com acompanhamento médico.
No Sistema Único de Saúde, os inibidores da acetilcolinesterase são fornecidos para doença de Alzheimer leve a moderada, de acordo com critérios clínicos definidos em protocolo específico.
memantina
A memantina é um outro tipo de medicação que atua na via do glutamato, ajudando a regular a excitabilidade dos neurônios. Ela é indicada principalmente para estágios moderados a graves de Alzheimer ou em associação aos inibidores da acetilcolinesterase em alguns casos.
Os estudos mostram benefícios modestos, mas importantes para muitas famílias, como:
Pequena melhora ou estabilização da cognição.
Menos agitação, agressividade ou irritabilidade em alguns pacientes.
Mais facilidade para cuidados básicos, como banho e alimentação.
Efeitos colaterais possíveis incluem tontura, dor de cabeça, sonolência ou agitação em algumas pessoas. A dose também é aumentada de forma gradual.
No SUS, a memantina é disponibilizada para doença de Alzheimer moderada a grave, conforme critérios definidos pelo Ministério da Saúde e pelas diretrizes da Academia Brasileira de Neurologia.
Remédios para comportamento, sono e humor
Além dos medicamentos específicos para Alzheimer, muitas vezes é necessário tratar sintomas associados. Alguns exemplos:
Depressão e ansiedade: podem ser tratados com antidepressivos, em especial os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, sempre avaliando risco e benefício em idosos.
Agitação intensa, agressividade ou delírios: em alguns casos, pode ser necessário o uso de antipsicóticos em doses baixas e por tempo limitado, após tentar intervenções não medicamentosas.
Distúrbios do sono: ajustes de rotina, higiene do sono e, em último caso, medicações específicas, evitando benzodiazepínicos sempre que possível.
Um ponto importante: esses remédios nunca devem ser iniciados ou suspensos por conta própria. São medicações com efeitos colaterais relevantes em idosos e precisam ser muito bem indicadas.
Tratamento não medicamentoso para Alzheimer
As diretrizes atuais deixam bem claro que medidas não farmacológicas não são “complemento”, são parte central do tratamento, com efeito semelhante ou até maior que vários remédios para alguns sintomas.
estimulação cognitiva
Atividades que desafiam o cérebro, dentro do limite de cada pessoa, ajudam a manter funções por mais tempo. Alguns exemplos:
Conversas sobre fatos do dia, rotina, notícias simples.
Jogos de tabuleiro, cartas, palavras cruzadas ou atividades de associação de figuras.
Treinos de memória adaptados, como revisar fotos de família, recontar histórias, montar álbuns.
O ideal é que essas atividades sejam orientadas por equipe de reabilitação ou por profissionais capacitados, mas a família também pode aplicar estratégias simples no dia a dia.
Fisioterapia e terapia ocupacional
Movimento é tratamento para o cérebro. Exercícios físicos regulares, alongamentos, treino de marcha e equilíbrio reduzem o risco de quedas, melhoram o humor e ajudam na autonomia.
A terapia ocupacional auxilia a adaptar a casa, simplificar tarefas e criar rotinas que facilitem o banho, a alimentação, o vestir e outras atividades de vida diária.
Fonoaudiologia e comunicação
Em muitos casos, o Alzheimer traz dificuldades de linguagem ou de deglutição. A fonoaudióloga atua na adaptação da comunicação, no treino de estratégias para manter a conversa possível e, quando necessário, na orientação de consistência dos alimentos para reduzir risco de engasgos.
Apoio ao cuidador e à família
Cuidar de alguém com Alzheimer é emocionalmente e fisicamente exaustivo. As diretrizes brasileiras reforçam que educação e suporte ao cuidador são parte do tratamento, não um detalhe opcional.
Isso inclui: orientação sobre a doença, manejo de sintomas difíceis, estratégias de segurança em casa, planejamento jurídico e social, além de suporte psicológico quando necessário. Organizações de apoio como associações de Alzheimer oferecem materiais, grupos de apoio e informações atualizadas.

Estilo de vida e controle de fatores de risco
Hábitos saudáveis não substituem remédios, mas ajudam o cérebro a funcionar melhor, inclusive depois do diagnóstico. Estudos mostram que controlar pressão alta, diabetes, colesterol e parar de fumar reduz risco de declínio mais rápido.
Algumas medidas importantes:
Manter pressão, glicose e colesterol bem controlados.
Praticar atividade física regular, adaptada à idade e à condição clínica.
Ter uma alimentação equilibrada, próxima de um padrão mediterrâneo, com mais frutas, verduras, legumes, grãos integrais, azeite e menos ultraprocessados.
Preservar o contato social, evitando isolamento.
Quando começar o tratamento e por quanto tempo seguir?
Quanto mais cedo o diagnóstico e o início do tratamento, maior a chance de preservar funções por mais tempo. Em geral, os medicamentos são mantidos enquanto houver benefício perceptível na cognição, no comportamento ou na autonomia. A decisão de continuar, ajustar ou suspender remédios precisa ser sempre individualizada, baseada em reavaliações periódicas.
Mesmo nos estágios avançados, o tratamento não se resume a remédio. Focar em conforto, controle de dor, prevenção de infecções, cuidado com a pele, posicionamento, alimentação adequada e apoio à família continua sendo essencial.
Tratamento para Alzheimer não é uma receita única. É um conjunto de decisões, ajustadas ao longo do tempo, que envolve medicações, reabilitação, adaptação da rotina, cuidado com o corpo e suporte emocional para toda a família.
Se você convive com alguém com Alzheimer e tem a sensação de que “não há mais o que fazer”, essa sensação quase nunca corresponde à realidade. Sempre há espaço para ajustar algo, aliviar um sintoma, organizar melhor a rotina ou oferecer mais conforto.
Sou Dra. Ariely Teotonio Borges, médica neurologista, e trabalho junto com cada um dos meus pacientes, utilizando estratégias que os ajudem a melhorar sua rotina e qualidade de vida.
Fontes:
Brucki SMD et al. Manejo das demências em fase avançada. Dement Neuropsychol. 2022. Academia Brasileira de Neurologia.
Alzheimer’s Association. Treatments for Alzheimer’s and other dementias.
Ministério da Saúde do Brasil. Protocolos e diretrizes para o cuidado da pessoa idosa com demência. ABRAz e parceiros. Materiais educativos para familiares e cuidadores de pessoas com doença de Alzheimer.
Livingston G et al. Dementia prevention, intervention, and care. The Lancet Commission.





Comentários