Congelamento da marcha no Parkinson: o que piora e o que pode ajudar
- Ariely Teotonio Borges

- 24 de jun.
- 5 min de leitura
Tem gente que descreve assim: Parece que o pé colou no chão, a cabeça manda andar, mas o corpo não obedece. Esse “travamento” tem nome. Congelamento da marcha. Ele pode aparecer no Parkinson e costuma aumentar risco de quedas, principalmente em momentos bem específicos do dia a dia.
Neste texto eu vou organizar o raciocínio de um jeito prático. O que costuma piorar, o que pode ajudar na hora, e o que dá para ajustar na rotina.
Resumo:
Congelamento da marcha costuma aparecer ao iniciar a caminhada, ao virar, em espaços estreitos como portas e em situações de dupla tarefa. Estresse e pressa tendem a piorar episódios. Pistas externas, como ritmo, música, contagem ou uma marca visual no chão, podem ajudar a “destravar”. Em algumas pessoas, o congelamento aparece quando a medicação está “fraca”, e pode melhorar com ajuste, mas isso é individual. Além de remédio, fisioterapia com treino de estratégias e segurança faz diferença.
O que é congelamento da marcha, na prática
É uma dificuldade súbita de iniciar ou manter a passada. Pode durar segundos, às vezes mais. Para quem vê de fora, parece teimosia. Para quem está vivendo, é uma sensação de perda de controle. E um detalhe importante: não se tratr de falta de força, ou fraqueza e sim falta de controle do movimento.
O que costuma piorar o congelamento
Se você quiser observar em casa, eu sugiro olhar para estes gatilhos, porque eles aparecem repetidamente em estudos e também na prática do consultório.
1) Virar e mudar de direção
Virar é um dos gatilhos mais comuns. Virar rápido, virar em espaço apertado, virar e já entrar em uma porta.
2) Portas, corredores estreitos e “passagens”
Muita gente congela justamente na porta do banheiro, no corredor, na entrada do elevador, ou ao passar entre móveis.
3) Dupla tarefa
Falar e andar. Olhar o celular e andar. Carregar sacola e tentar virar ao mesmo tempo. O cérebro fica sobrecarregado e a marcha “trava”.
4) Pressa, ansiedade, medo de cair
O congelamento costuma piorar quando a pessoa se sente observada, apressada, com medo, ou tentando “andar no susto”. Em muitos casos, o próprio medo vira gatilho.
5) Final de caminho
É curioso, mas acontece. A pessoa está chegando na cadeira, no sofá, no destino, e congela nos últimos passos.
6) Medicação “acabando” ou momentos específicos do dia
Algumas pessoas congelam mais quando estão submedicadas, e podem melhorar com ajuste de terapia dopaminérgica. Mas existe também o chamado freezing “ON”, quando o travamento acontece mesmo no período em que a medicação está fazendo efeito. Por isso não existe regra aqui, existe caso a caso.
O que fazer na hora, para destravar com mais segurança
Estratégias simples e frequentemente recomendadas por instituições e programas de Parkinson.
1) Pare. Respire. Reinicie.
Quanto mais você tenta forçar no desespero, mais trava. Então a primeira ordem é: parar e reorganizar.
2) Tire a dupla tarefa
Se estava falando, pare de falar. Se estava olhando algo, pare. Volte para uma única missão: dar o próximo passo.
3) Use uma pista externa, uma “senha” para o corpo
Opções que costumam funcionar:
• Contar em ritmo, um, dois, três.
• Cantar, bater um ritmo, usar música.
• Imaginar uma linha no chão e “passar por cima”.
• Olhar para um ponto além da porta, como se fosse atravessar até lá, não até a soleira.
A Parkinson’s Foundation descreve estratégias como mudar o peso do corpo, marchar e usar ritmo e música para sair do congelamento.
4) Troque o comando, em vez de “anda”
Algumas pessoas destravam melhor com comandos específicos:
• “Levanta o joelho e pisa”
• “Um passo grande”
• “Pé direito agora”
5) Para virar, faça em partes
Virar rápido e apertado é receita para congelar, mé melhor:
• parar
• dar passos curtos para virar, como se fosse um semicírculo
• depois seguir
6) Segurança primeiro
Se você congela com frequência, o maior risco é cair tentando se apoiar em algo longe demais. Prefira apoiar em algo estável e próximo. E vale avaliar o uso de dispositivo de apoio quando houver quedas ou insegurança.
O que pode ajudar na rotina, e não só na hora do travamento
1) Fisioterapia com treino de pistas e tarefas reais
Treino com pistas, chamada cueing, pode reduzir gravidade do freezing e melhorar parâmetros da marcha, especialmente quando é aplicado de forma prática e direcionada. O melhor treino é o que simula os gatilhos reais. Virar, passar por porta, iniciar caminhada, caminhar com atenção plena.
2) Ajuste de ambiente
• Tirar tapete pequeno e fio no caminho.
• Aumentar iluminação em corredores e perto do banheiro.
• Reduzir excesso de móveis que estreitam a passagem.
• Se a porta é um gatilho clássico, uma marca discreta no chão pode funcionar como pista visual.
3) Revisão do tratamento
Congelamento pode estar ligado ao momento do dia e ao estágio do Parkinson. Por isso vale conversar com seu neurologista, porque ajuste de medicação pode ajudar em alguns casos.

O que é comum
• Travar mais em dia de pressa, ansiedade e cansaço.
• Travar mais ao virar, ao passar em porta e quando tenta fazer duas coisas ao mesmo tempo.
• Ter dias melhores e dias piores, dependendo de sono, rotina e estresse.
Quando é sinal de alerta
Eu prefiro investigar com mais rapidez quando:
• há quedas repetidas ou quase quedas frequentes
• o congelamento começou de forma recente e está piorando rápido
• a pessoa passa a evitar sair de casa por medo
• aparecem sintomas novos importantes junto, como desmaios, fraqueza marcada, confusão súbita, ou alteração de fala
Checklist rápido para a família
Se você quiser começar hoje, faça isto por 7 dias:
Anote quando trava, virando, porta, início da marcha, dupla tarefa.
Anote se estava perto do horário da medicação, ou se estava ansioso ou apressado.
Grave 2 vídeos curtos, um iniciando a marcha, outro virando e passando na porta.
Teste uma pista, música ou contagem, e anote se ajudou.
Reorganize o corredor e o banheiro, luz e caminho livre.
Isso deixa a consulta muito mais objetiva.
Perguntas frequentes
Congelamento é só na fase avançada do Parkinson? Não necessariamente. Pode aparecer em fases diferentes e varia muito de pessoa para pessoa.
Remédio resolve congelamento? Em alguns casos ajuda, principalmente quando o freezing aparece submedicado. Em outros casos não resolve sozinho, e pode existir freezing ON. Por isso precisa de avaliação individual.
Pistas funcionam mesmo? Para muita gente, sim. Pistas visuais e auditivas são estratégias bem reconhecidas para ajudar a sair do congelamento.
Qual é a melhor pista? A melhor é a que funciona para aquela pessoa e que ela consegue usar no dia a dia, com segurança.
Sou Dra. Ariely Teotonio Borges, médica neurologista, e trabalho junto com cada um dos meus pacientes, utilizando estratégias que os ajudem a melhorar sua rotina e qualidade de vida.
Fontes
Parkinson’s Foundation, estratégias para freezing.
Parkinson’s UK, técnicas de cueing para freezing.
APDA, freezing e relação com medicação, incluindo freezing ON.





Comentários