Cirurgia de DBS, quem é candidato e quem não é?
- Ariely Teotonio Borges

- há 4 dias
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DBS é para todo mundo com Parkinson? DBS é a cirurgia que cura Parkinson? A cirurgia de Estimulação Cerebral profunda é só para quem está muito mal?
Essas três ideias aparecem o tempo todo e atrapalham a decisão. DBS, estimulação cerebral profunda, é um tratamento consolidado para alguns distúrbios do movimento, principalmente quando os sintomas motores e as complicações do remédio já não ficam bem controlados só com ajuste de medicação.
Neste texto eu vou organizar o que eu considero na prática. Quem costuma ser bom candidato, quem geralmente não é, e como funciona a avaliação.
Resumo do que você vai contrar a seguir:
DBS não é cura e não interrompe a progressão do Parkinson, ela melhora sintomas motores e complicações como flutuações e discinesias em pessoas selecionadas. O melhor candidato costuma ser quem tem tremor, rigidez e lentidão que melhoram com levodopa, mas que oscilam ao longo do dia ou dão discinesia. Problemas importantes de memória e pensamento, e demência, pesam contra a indicação em muitos casos. Quedas e instabilidade postural importantes, principalmente quando acontecem mesmo no melhor momento do remédio, costumam limitar o benefício. A decisão é feita por equipe multiprofissional, com neurologia, neurocirurgia e avaliação neuropsicológica, entre outros passos.
O que é a cirurgia de DBS?
DBS é um sistema de eletrodos implantados no cérebro, ligados a um gerador, que envia estímulos elétricos para modular circuitos envolvidos no movimento. O objetivo é reduzir sintomas e suavizar oscilações do tratamento. Ela pode ajudar muito. Mas precisa ser colocada no lugar certo, com expectativa correta.
Para quais sintomas DBS costuma ajudar melhor?
DBS tende a funcionar melhor para o que já melhora com levodopa, mas virou um vai e volta ao longo do dia.
Melhora sintomas como:
• tremor
• rigidez
• lentidão
• distonia relacionada ao Parkinson
• discinesia e flutuações motoras
Quem costuma ser candidato?
Não existe um checklist universal que substitua avaliação. Mas existe um perfil que se repete.
1) Diagnóstico compatível com Parkinson idiopático
Isso é importante porque alguns parkinsonismos atípicos não respondem do mesmo jeito e a indicação muda.
2) Boa resposta à levodopa para os sintomas principais
A resposta à levodopa é um dos melhores preditores de resposta da DBS. Se a levodopa melhora tremor, lentidão e rigidez, a chance de DBS ajudar nesses pontos é maior.
3) Sintomas ainda responsivos, mas com controle ruim no dia a dia
Aqui entram dois cenários muito comuns:
• períodos em OFF e flutuações, o remédio dura menos e oscila
• discinesias importantes ou tremor que incomoda mesmo com tratamento otimizado
A forma como a Michael J Fox Foundation explica isso é bem parecida com o que eu vejo na prática: DBS passa a ser considerada quando os problemas motores e as complicações do tratamento já não ficam bem controlados com o melhor esquema de medicações.
4) Capacidade de participar do processo
DBS exige acompanhamento, ajustes, retornos, programação e comunicação clara de sintomas. Por isso eu olho muito para suporte familiar e aderência.
Quem geralmente não é candidato, ou precisa de muita cautela?
1) Demência ou comprometimento cognitivo importante
DBS costuma funcionar melhor quando não há, ou há apenas alterações leves de memória e pensamento. Pessoas com demência geralmente não são boas candidatas, porque DBS pode piorar cognição em quem já está vulnerável e a cirurgia exige cooperação no pós operatório.
2) Quedas frequentes e instabilidade postural marcante
Quando o principal problema é equilíbrio, quedas e travamentos que não melhoram nem no melhor momento do remédio, DBS tende a ter benefício limitado, e o risco de queda continua alto. Um documento do NHS England chega a listar, que a cirurgia não deve ser feita em pacientes com demência clinicamente significativa, instabilidade postural marcada e freezing ou quedas no estado on.
3) Quadros psiquiátricos não controlados e psicose importante
Alucinações e delírios precisam ser avaliados com cuidado. Em alguns casos é possível conduzir, em outros isso pesa contra, principalmente se houver risco de segurança e desorganização importante. A avaliação inclui humor e comportamento justamente para reduzir risco.
4) Pouca resposta à levodopa
Se a levodopa quase não melhora os sintomas motores principais, DBS tende a entregar menos, porque ela costuma reproduzir, de forma mais estável, o que a dopamina já fazia.
Como é a avaliação de um candidato?
confirmação diagnóstica e revisão detalhada da história
entender padrão de sintomas, flutuações, discinesia, tremor e impacto funcional
avaliar resposta à levodopa e o que é realmente limitante
avaliação neuropsicológica de atenção, memória e funções executivas, e rastreio de humor
avaliação com neurocirurgia e discussão de risco clínico
exames de imagem e planejamento cirúrgico, conforme o protocolo do serviço

O que é comum
É comum achar que DBS é “último recurso”. E acabar chegando tarde, quando já existe muita instabilidade, muita queda e muita fragilidade cognitiva. Também é comum achar que DBS resolve tudo. Não resolve. Ela resolve bem algumas coisas, e não foi feita para outras.
Perguntas frequentes
DBS é cura para Parkinson? Não. Ela não cura e não interrompe a progressão. Ela melhora sintomas e estabiliza complicações em pessoas selecionadas.
Todo mundo com Parkinson pode fazer? Não. A seleção é parte do tratamento, porque benefício e risco mudam muito de pessoa para pessoa.
Quem tem demência pode fazer DBS? Em geral, demência pesa contra a indicação. E, quando existe comprometimento cognitivo, isso precisa ser discutido com muita cautela.
DBS melhora equilíbrio e quedas? Às vezes pode ajudar em aspectos específicos, mas quedas e instabilidade marcante costumam limitar o benefício e exigem estratégia de reabilitação e segurança mesmo com DBS.
Sou Dra. Ariely Teotonio Borges, médica neurologista, e trabalho junto com cada um dos meus pacientes, utilizando estratégias que os ajudem a melhorar sua rotina e qualidade de vida.
Fontes
Parkinson’s Foundation, estimulação cerebral profunda, critérios gerais e sintomas que respondem.
Revisão clínica sobre fundamentos e seleção em DBS para Parkinson.
Parkinson’s UK, avaliação cognitiva e perfil que costuma responder melhor.
Michael J Fox Foundation, quando considerar DBS e papel de flutuações e discinesia.
NHS England, cautelas e situações em que STN DBS não deve ser realizada, incluindo demência e instabilidade postural marcada.





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