Como saber se é Alzheimer ou outra demência: como é a consulta e o que costuma ser investigado
- Ariely Teotonio Borges

- há 13 horas
- 4 min de leitura
“Meu pai está esquecendo mais. Isso já é Alzheimer?” “Como vocês fecham esse diagnóstico?” “Que exames precisam ser feitos para investigar demência?”
Essas são dúvidas muito comuns, e eu entendo a ansiedade. A boa avaliação não é um pacote de exames. Ela é um passo a passo, para entender se existe demência, qual tipo, e o que pode ser tratado ou ajustado no caminho. Neste texto, eu vou te mostrar como costuma ser a investigação na prática, o que eu observo na consulta, quais exames são mais frequentes e em que situações preciso aprofundar. Não existe um único exame que, sozinho, diga “é Alzheimer” ou “é outra demência”. O diagnóstico é construído juntando história, exame neurológico, testes cognitivos e exames complementares.
A história, o que eu pergunto e por quê?
Quando começou e como evoluiu
Eu quero entender se foi algo lento e progressivo, ou se apareceu de forma súbita. Começo súbito muda totalmente a investigação, porque levanta outras hipóteses.
1) O que mudou na vida real
a pessoa começou a se perder em lugares conhecidos
passou a errar contas simples ou pagamentos
ficou mais desorganizada com remédios e horários
mudou a forma de falar, de se comportar, de lidar com dinheiro
começou a repetir muito as mesmas perguntas
Quem percebeu primeiro
Quando um familiar conta exemplos concretos, a consulta anda mais rápido. E, muitas vezes, o paciente minimiza sem perceber.
Remédios, álcool, sono e humor
Muita coisa parece demência e não é. E algumas medicações pioram atenção e memória. Transtornos do sono e depressão também podem imitar ou piorar sintomas cognitivos.
2) Testes de memória e raciocínio
Na consulta, usamos testes simples para triagem e orientamos o próximo passo. Eles não servem para medir domínios como:
memória recente
atenção
linguagem
funções executivas, planejamento, organização
orientação no tempo e espaço
Ás vezes é é necessário a indicação de uma avaliação neuropsicológica, a qual ajuda a mapear padrões, diferenciar causas e acompanhar evolução com mais precisão.
3) Exame neurológico e exame físico
Avaliamos força, sensibilidade, reflexos, coordenação, marcha, rigidez, tremor, movimentos involuntários, fala e outros sinais neurológicos. Isso é importante porque algumas demências têm pistas no exame, e porque outras doenças neurológicas podem se apresentar com queixa de memória.
4) Exames de sangue, o que costuma entrar na investigação
Exemplos comuns:
função da tireoide
vitamina B12
alterações metabólicas que bagunçam o funcionamento cerebral
outras alterações que podem justificar sintomas, dependendo do caso
A lista exata varia com idade, sintomas e histórico.
5) Imagem do cérebro, quando peço e o que procuro
A imagem ajuda de duas formas: descartar problemas que imitam demência e buscar padrões compatíveis com certas causas. Na prática, o exame mais comum é ressonância. Em alguns cenários, tomografia entra quando ressonância não é possível ou quando a urgência pede.
6) Quando entram exames mais específicos
Em alguns pacientes, especialmente quando a dúvida diagnóstica é maior ou quando precisamos de mais segurança para orientar condutas, podem entrar exames como:
testes de líquor
exames de sangue com biomarcadores
exames de imagem funcional, como PET, em situações selecionadas
Isso não é para todo mundo. É uma decisão individual, com conversa clara sobre para que serve, o que muda na prática e quais são as limitações.

O que é comum
Algumas queixas aparecem muito e nem sempre significam demência:
esquecer nomes e depois lembrar
ficar mais lento para aprender coisas novas
piora de atenção em períodos de estresse, luto ou privação de sono
queixa de memória com humor muito baixo
Mesmo assim, quando isso começa a impactar rotina, vale avaliar.
Quando é sinal de alerta
Procure avaliação mais rápida se houver:
perda de autonomia, mesmo que pequena, para tarefas do dia a dia
desorientação, se perder em lugares habituais
mudança de personalidade ou comportamento que não é “jeito”
alucinações, confusão importante
piora rápida em semanas ou poucos meses
sintomas neurológicos associados, como fraqueza, alteração de fala, assimetria facial
Esses cenários mudam a urgência e o tipo de investigação.
O que levar para a consulta para acelerar a investigação
Se você quiser chegar mais preparado, isso ajuda muito:
lista de medicamentos e suplementos, com doses
exames anteriores, se existirem
uma linha do tempo simples, quando começou e como evoluiu
3 a 5 exemplos reais do dia a dia que motivaram a consulta
histórico familiar de demência, se houver
alguém da família que convive de perto, quando possível
Perguntas frequentes
Qual médico faz a avaliação de demência? Geralmente neurologista ou geriatra, e em alguns casos psiquiatra, dependendo do quadro.
Todo mundo precisa fazer ressonância? Não obrigatoriamente, mas é muito comum na investigação inicial.
Existe exame de sangue que confirma Alzheimer? Existem biomarcadores em alguns contextos, mas não é um “teste único” para todo mundo. A indicação é individual.
Se o teste de memória vier normal, está tudo bem? Às vezes sim, às vezes não. Depende da queixa, do exame, da função no dia a dia e da evolução.
Depressão pode parecer Alzheimer? Pode. E também pode coexistir. Por isso a avaliação precisa ser completa.
Quanto tempo leva para fechar o diagnóstico? Varia. Alguns casos são claros na primeira avaliação, outros exigem acompanhamento e comparação ao longo do tempo.
Quando a família entende o que está sendo investigado, a consulta fica mais produtiva e a ansiedade diminui. E quanto mais cedo a gente organiza o quadro, mais cedo dá para planejar rotina, segurança, tratamento e apoio. Para mais informações sobre demências, veja os nossos outros artigos sobre o assunto: https://www.atbneuroclinica.com.br/blog/categories/alzheimer
Sou Dra. Ariely Teotonio Borges, médica neurologista, e trabalho junto com cada um dos meus pacientes, utilizando estratégias que os ajudem a melhorar sua rotina e qualidade de vida.
Fontes
Alzheimer’s Association, avaliação e testes diagnósticos
National Institute on Aging, avaliação de comprometimento cognitivo
Mayo Clinic, diagnóstico de demência e exames laboratoriais
Alzheimer’s Association, diretrizes clínicas recentes para avaliação e diagnóstico





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