top of page

Quais as chances de morrer de doença de Parkinson?

  • Foto do escritor: Ariely Teotonio Borges
    Ariely Teotonio Borges
  • 11 de mar.
  • 5 min de leitura

Quando recebo um diagnóstico de doença de Parkinson no consultório, uma das perguntas que mais escuto é alguma variação de:“Doutora, eu vou morrer disso?” ou “Quais são as chances de morrer de doença de Parkinson?”.Essa é uma dúvida muito legítima. Parkinson assusta, mexe com autonomia e com o futuro. Mas quando falamos em risco de morte, precisamos separar alguns pontos importantes: o que é a doença em si, o que são as complicações e o que hoje a medicina já consegue fazer para proteger a vida e a qualidade de vida de quem convive com esse diagnóstico.

Neste texto, vou te explicar de forma clara como a doença de Parkinson se relaciona com mortalidade, quais complicações realmente preocupam e o que você pode fazer para reduzir riscos.

Doença de Parkinson mata?

A doença de Parkinson, por definição, não é considerada uma doença “fatal” no mesmo sentido de alguns cânceres agressivos. Ela é uma condição neurológica crônica que causa sintomas motores e não motores e que evolui ao longo dos anos, mas não provoca a morte de forma direta.

O que costuma levar ao óbito não é o Parkinson em si, e sim as complicações associadas ao estágio avançado da doença, como infecções graves, principalmente pneumonia, desnutrição, quedas com fraturas, imobilidade prolongada e problemas cardíacos. Estudos mostram que pneumonia aspirativa é uma causa muito frequente de morte em pessoas com Parkinson.

Então a resposta honesta é: a doença de Parkinson aumenta o risco de morte em relação à população geral, mas esse risco está muito ligado ao controle dos sintomas, às comorbidades e à prevenção das complicações.

Parkinson reduz a expectativa de vida?

De forma geral, quem tem Parkinson vive muitos anos após o diagnóstico. Em vários estudos, a expectativa de vida é próxima da população da mesma faixa etária, principalmente quando há acesso a tratamento, reabilitação e acompanhamento regular.

Algumas pesquisas populacionais mostram que a mortalidade em pessoas com Parkinson é discretamente maior do que na população geral, o que pode se traduzir em poucos anos a menos de vida em média, e não em uma mudança radical de expectativa de vida.

Na prática do consultório, vejo muitos pacientes que convivem com a doença por dez, quinze, vinte anos ou mais, especialmente quando o tratamento é bem ajustado e há cuidado com atividade física, sono, alimentação e prevenção de quedas e infecções.

O que realmente aumenta o risco de morte na doença de Parkinson

Alguns fatores estão mais associados a pior prognóstico e maior risco de complicações:

• Idade avançadaQuanto mais idosa é a pessoa no momento do diagnóstico, maior a chance de outras doenças associadas, como cardiopatias, diabetes, hipertensão e fragilidade física, que também impactam mortalidade.

• Dificuldade para engolirA disfagia aumenta o risco de engasgos, aspiração de alimento e saliva para o pulmão e pneumonia. Pneumonia aspirativa é uma das principais causas de internação e óbito em estágios avançados.

• Quedas e fraturasInstabilidade postural, congelamento da marcha e fraqueza aumentam o risco de quedas. Fraturas de fêmur e imobilização prolongada estão ligadas a perda de massa muscular, infecções e perda de independência.

• Imobilidade prolongadaFicar muito tempo acamado ou em cadeira sem mobilização adequada favorece trombose, escaras, perda muscular intensa, infecções urinárias e respiratórias.

• Demência associada ao ParkinsonQuando a doença cursa com declínio cognitivo importante, aumenta o risco de desorientação, dificuldade de seguir tratamentos, maior dependência e maior vulnerabilidade a complicações.

• Controle inadequado de comorbidadesPressão alta descompensada, arritmias, diabetes mal controlada, obesidade e tabagismo também pesam na balança, como em qualquer outra pessoa, com ou sem Parkinson.

Perceba que quase todos esses pontos podem ser identificados, monitorados e trabalhados de forma ativa.

A doença está progredindo, logo o risco aumenta?

A doença de Parkinson é progressiva, mas isso não significa uma linha reta e rápida em direção à perda de autonomia ou ao óbito. A evolução é muito variável.

Algumas pessoas mantêm boa independência por muitos anos. Outras evoluem com mais limitações, principalmente se não tiverem acesso a fisioterapia, fonoaudiologia, ajustes adequados de medicação ou se tiverem outras doenças associadas.

O que faz diferença no dia a dia é:• revisar os remédios com frequência• ajustar doses para evitar tanto rigidez quanto efeitos colaterais• acompanhar marcha e equilíbrio• treinar estratégias para engolir com segurança• trabalhar força, flexibilidade e condicionamento físico• cuidar de sono e humor

O que posso fazer para reduzir riscos e viver mais e melhor com Parkinson?

Nem tudo está nas nossas mãos, mas muita coisa está. Alguns pontos fundamentais:

1. Seguir o tratamento de forma regular

Tomar os medicamentos nos horários certos, não interromper por conta própria, avisar sobre efeitos colaterais e retornar às consultas programadas é essencial para manter os sintomas sob controle e reduzir flutuações motoras intensas.

Em muitos casos, cirurgias como a estimulação cerebral profunda também podem ajudar a reduzir tremores e rigidez, melhorar a mobilidade e diminuir a dose de remédios, o que impacta qualidade de vida e segurança.

2. Fazer reabilitação de forma consistente

Fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional não são “extras”, são partes centrais do tratamento:• fisioterapia ajuda na marcha, postura, equilíbrio e prevenção de quedas• fonoaudiologia atua na fala e na deglutição, reduzindo risco de engasgos e pneumonia aspirativa• terapia ocupacional adapta atividades e ambiente para manter independência com segurança

3. Manter atividade física regular

Exercícios aeróbicos, treino de força e atividades que desafiam o equilíbrio são aliados importantes. Vários estudos mostram que atividade física regular se associa a melhor função motora, menos quedas e até possível impacto positivo na progressão dos sintomas.

4. Cuidar do sono, do humor e da mente

Depressão, ansiedade, apneia do sono, alucinações e alterações de comportamento também aumentam o risco de complicações, seja por pior adesão ao tratamento, seja por quedas, desorientação ou uso inadequado de remédios. Falar sobre esses sintomas é parte do cuidado.

5. Vacinar e prevenir infecções

Vacinas contra gripe, pneumonias bacterianas e covid, quando indicadas, ajudam a reduzir infecções respiratórias graves, que são uma causa importante de internação e mortalidade em pessoas com doenças neurológicas crônicas.

doença de Parkinson mata?

Quando procurar ajuda com urgência

Alguns sinais não devem ser ignorados em quem tem Parkinson:• febre, tosse forte, falta de ar ou sonolência excessiva• engasgos repetidos com líquidos ou alimentos• queda com batida na cabeça, dor intensa ou dificuldade para levantar• confusão mental súbita, desorientação ou agitação intensa• redução brusca da mobilidade, com o paciente “congelando” e mal conseguindo andar

Essas situações podem indicar complicações graves e exigem avaliação imediata em pronto atendimento.

Então, quais são as chances de morrer de doença de Parkinson?

Do ponto de vista estatístico, quem tem doença de Parkinson tem um risco um pouco maior de mortalidade ao longo dos anos do que alguém da mesma idade sem a doença. Mas esse risco varia muito conforme a idade, o grau de comprometimento, as comorbidades e, principalmente, a qualidade do cuidado ao longo do caminho.

Do ponto de vista humano, o foco mais importante não é apenas “qual a chance de morrer da doença”, e sim “o que podemos fazer hoje para viver mais tempo e com mais autonomia, menos quedas, menos engasgos, menos internações e mais qualidade de vida”.

Esse é, todos os dias, o meu objetivo com cada pessoa que atendo com doença de Parkinson.


Sou Dra. Ariely Teotonio Borges, médica neurologista, e trabalho junto com cada um dos meus pacientes, utilizando estratégias que os ajudem a melhorar sua rotina e qualidade de vida.



Fontes:

  • Global Trends in the Incidence, Prevalence, and Years Lived With Disability of Parkinson’s Disease. Lancet Neurology. Macleod AD et al. A systematic review and meta analysis of mortality in Parkinson’s disease.

  • Movement Disorders. Healthgrades. Parkinson’s disease: symptoms, causes and treatment.

  • Kingswells Medical Practice NHS resource. Parkinson’s disease: life expectancy and complications.

  • Hely MA et al. Causes of death in patients with Parkinson’s disease. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry.

Comentários


Post: Blog2 Post

CNPJ: 37.015.970/0001-70

Razão Social: ATB SERVICOS MEDICOS LTDA

Responsável Técnico:
Dra Ariely Teotonio Borges - CRM 8262MT

bottom of page